A Herdeira das Cinco Coroas começou antes de Nangueli receber esse nome. Começou com uma inquietação: como escrever uma história sobre desejo, poder e vários vínculos amorosos sem transformar a protagonista em prêmio, propriedade ou instrumento de reprodução?

Eu queria uma mulher capaz de amar, desejar e construir uma família fora dos modelos tradicionais, mas que continuasse dona do próprio corpo e das próprias escolhas. Ao mesmo tempo, queria aventura, tecnologia, homens que carregassem feras sob a pele e um mundo grande o bastante para obrigar essa mulher a descobrir quem realmente era.

A centelha veio das histórias chinesas

A primeira inspiração veio de histórias chinesas e mànjù ambientados em mundos de homens-fera. Elas costumavam reunir elementos irresistíveis: uma mulher rara, homens poderosos de espécies diferentes, sociedades interestelares, sistemas de classificação, compatibilidade genética, proteção, ciúme, competição e vários pretendentes.

O ponto de partida estava ali, mas a minha história precisava seguir outro caminho. Não quis repetir a fórmula da protagonista transmigrada, dos sete noivos, da falsa herdeira, do mercado de escravos ou de uma coleção de homens que existissem apenas para desejá-la. Nangueli nasceria naquele universo. Cada vínculo precisaria ter consequência emocional e política. Cada homem teria voz, passado e escolhas próprias.

A inspiração oferece uma porta. O trabalho do autor é descobrir para qual mundo essa porta se abre.

Antes da personagem, veio a pergunta

Naquele período, eu também acompanhava discussões políticas e conteúdos que ameaçavam direitos já conquistados pelas mulheres. A vontade de escrever se tornou mais clara: eu queria criar uma história que devolvesse às mulheres força, poder e voz.

Assim nasceu o eixo de Nangueli. O Império tenta medi-la, classificá-la, decidir sua função e escolher seus parceiros. Ela, porém, é justamente a mulher que o sistema não consegue medir. A compatibilidade pode aproximar corpos, mas não substitui consentimento. A biologia pode indicar possibilidades, mas não decide o amor.

Como encontrei o nome Nangueli

O nome foi inspirado em Nangeli, figura lendária de Kerala, no sul da Índia, associada à resistência de uma mulher contra a opressão de casta e o controle exercido sobre o corpo feminino. A história chegou até nós como uma narrativa de coragem e autonomia — exatamente os valores que eu queria carregar para a protagonista.

Adaptei Nangeli para Nangueli, inserindo o “u” para preservar, em português, a sonoridade que eu imaginava. O nome precisava parecer antigo e futuro ao mesmo tempo: singular o bastante para uma herdeira de outro século, mas humano o suficiente para permitir que aqueles que a amam a chamassem simplesmente de Nanan.

O sobrenome Itamaracá ligou a personagem ao Brasil, à água, à memória e ao território. Nangueli deixou de ser apenas a jovem rara das histórias que me inspiraram. Tornou-se uma herdeira indígena amazônica, de pele mel-acobreada, feições indígenas e cabelos preto-azulados, pertencente a uma linhagem que o Império tentou estudar, controlar e apagar.

Primeira versão visual de Nangueli Itamaracá ao lado de uma onça-preta
Uma das primeiras versões visuais de Nangueli, quando sua ligação com a onça-preta aparecia de forma direta.

Construir um mundo é pensar nas consequências

Um universo ficcional não se sustenta apenas por uma ideia bonita. Se os homens podem assumir formas bestiais e as mulheres manifestam poderes mentais, o que a sociedade faria com essas diferenças? Quem transformaria habilidade em poder? Quem criaria regras? Quem seria protegido — e quem seria controlado?

A resposta foi um futuro cerca de quinhentos anos depois de uma transformação solar que alterou a humanidade. Os homens desenvolveram formas ferais usadas na guerra e na defesa. As mulheres, mais raras, manifestaram poderes mentais e aprenderam a pilotar Mechas por meio de técnica e conexão. O Império transformou essas mudanças em hierarquia: criou Grandes Casas, testes genéticos, classificações, casamentos negociados e alianças determinadas por compatibilidade.

A Academia tornou-se o lugar onde esse sistema se apresenta como ciência e ordem. Nangueli, registrada como alguém sem importância, entra ali para estudar Engenharia de Convergência Biomecatrônica. Aos poucos, descobre que sua linhagem amazônica está na origem da tecnologia e das cinco matrizes que sustentam as Coroas.

Foi assim que a romantasia se encontrou com a ficção científica: feromônios, poderes e transformações convivem com genética, Mechas, tecnologia viva e colonialismo tecnológico. O romance não acontece separado do mundo. Ele é atravessado por aquilo que esse mundo acredita que uma mulher deve ser.

Da fera aparente ao rosto humano

As primeiras imagens mostravam o conceito de maneira imediata. Orelhas, caudas, asas, eletricidade e fogo permaneciam visíveis para que cada linhagem fosse reconhecida num único olhar. Nessa etapa, a imagem ajudava a descobrir o personagem enquanto o texto ainda encontrava sua voz.

Com o amadurecimento do universo, decidi que, no cotidiano, eles seriam humanos. Os traços animais só surgiriam quando o lado fera começasse a se manifestar. A mudança deu peso às transformações: o corpo passou a revelar instinto, tensão, desejo, medo ou perda de controle.

Soren, Tavian e Jianyu em suas versões humanas
Soren, Tavian e Jianyu em versões humanas posteriores. A imagem de abertura do artigo mostra também Nangueli e Tavian já nessa nova direção visual.

A pesquisa por trás dos Homens-Fera

Eu não queria escolher animais apenas pela aparência. Cada forma precisava dialogar com o temperamento, a origem, a função narrativa e até a maneira de amar de seu personagem. A pesquisa começou com a fauna brasileira e amazônica, passou por animais aquáticos, grandes predadores e aves de rapina e chegou também ao nosso imaginário mítico.

Tavian Augusto Valença · Ariranha

A ariranha é forte, territorial, aquática e profundamente ligada ao grupo. Essa combinação fez dela a matriz perfeita para Tavian: militar, protetor e primeiro a compreender que cuidar de Nangueli não significa mandar nela. Ele organiza o círculo como uma ariranha protege a família, mas precisa aprender que proteção sem escuta também pode se tornar prisão.

Card de pesquisa visual de Tavian ao lado de uma ariranha
A pesquisa da ariranha ajudou a unir lealdade, vida em grupo e proteção.

Malik N’Dour · Harpia

A harpia trouxe o céu, a visão e a liberdade. Malik precisava ampliar o mundo da narrativa: enquanto outros defendem território, ele enxerga rotas e saídas. Suas asas representam poder, mas também tudo o que tentaram retirar dele. Por isso, sua presença fala menos de posse e mais de autonomia.

Soren Erik Nygaard · Onça-pintada

A onça-pintada ofereceu silêncio, precisão, sentidos aguçados e domínio do território. Soren observa antes de agir, rastreia aquilo que os outros não percebem e guarda uma força que não precisa ser anunciada. A fera não foi escolhida apenas por ser poderosa, mas por combinar presença, mistério e contenção.

Jianyu Shen · Poraquê

Para Jianyu, procurei uma criatura aquática que não repetisse a força de Tavian. O poraquê trouxe eletricidade, imprevisibilidade e conexão com sistemas. Essa matriz conversa com sua curiosidade, com a inteligência rápida e com sua relação dolorosa com os reguladores e a tecnologia que tentou controlar seu corpo.

Zahir Auren · Boitatá

Zahir exigiu que a pesquisa atravessasse a zoologia e entrasse no mito. O Boitatá, serpente de fogo do imaginário brasileiro, reuniu calor, poder e defesa de fronteiras. Ele representa uma linhagem quase impossível de conter — e lembra que o Brasil desse futuro não é feito apenas de animais reais, mas também das histórias que sobreviveram conosco.

Antes dessa formação definitiva, surgiram possibilidades como sucuri, Boiúna e o nome provisório Povos da Segunda Pele. O processo de criação também é feito de caminhos abandonados. Algumas ideias desaparecem; outras deixam um vestígio e voltam transformadas em uma linhagem, um poder ou uma lenda.

O que mantém esse mundo unido

As cinco Coroas não existem para formar uma coleção de pretendentes. Elas representam Casas, culturas, interesses políticos e maneiras diferentes de compreender força, lealdade e família. Tavian, Malik, Soren, Jianyu e Zahir precisam existir para além de Nangueli. E Nangueli precisa poder desejar sem deixar de escolher.

Por isso, a pergunta central nunca foi apenas “com quem ela ficará?”. A pergunta é maior:

O que acontece quando uma mulher criada para unir um Império decide que não será usada para sustentá-lo?

Da construção do mundo para a capa

Quando chegou a hora de criar a imagem principal do livro, Nangueli precisava ocupar o centro. Não como prêmio entre homens, mas como a personagem cuja decisão altera todas as estruturas ao redor. Tavian aparece ao lado dela porque é o primeiro vínculo a ganhar profundidade e porque sua relação concentra o conflito entre proteção e liberdade que atravessa a obra.

A cidade futurista ao fundo, os tons de azul e dourado, as roupas e os rostos não são apenas decoração. São sinais de um mundo que começou em referências distantes, atravessou pesquisas históricas, políticas e zoológicas e encontrou uma identidade própria no Brasil do futuro.

A capa foi o primeiro encontro visual com esse universo. Mas, por trás dela, já existiam séculos de história, cinco linhagens, um Império, uma Amazônia que se recusa a desaparecer — e uma mulher que jamais aceitaria ser apenas escolhida.

Leia A Herdeira das Cinco Coroas no Wattpad

Nota de criação: este texto reconstrói o processo de desenvolvimento da obra, suas referências e as escolhas que transformaram as inspirações iniciais em um universo ficcional próprio.